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Recentemente me perguntaram se 1 Timóteo 3:4a é um mandamento para homens governarem suas casas, a insinuação é que as mulheres não devem ser chefes de família e devem concordar com o governo masculino. Eu ponderei que esta questão merece seu próprio post no blog. E é isto.

Neste artigo, examino brevemente as responsabilidades do chefe de família greco-romano (o responsável por uma casa) e como estas responsabilidades foram aplicadas na igreja. E eu argumento que 1 Timóteo 3:4a não afirma nem implica que somente homens devem ser chefes de família. Em vez disso, afirma que os superintendentes da igreja devem administrar bem seus lares.

Chefes de família como patronos e gerentes

No mundo romano do primeiro século, o chefe de família era freqüentemente o homem mais idoso da família. No entanto, mulheres, normalmente viúvas ou divorciadas, também podiam ser chefes de família (por exemplo, Lídia). O chefe de família, seja homem ou mulher, era responsável por prover todos os membros da família. Esses membros podiam incluir crianças, jovens e adultos, além de outros parentes, bem como servos e escravos.

O chefe de família também era responsável por garantir que a administração diária da casa e de qualquer comércio doméstico, funcionasse sem problemas. [1] Os homens chefes de família eram geralmente casados, e uma esposa capaz faria grande e efetiva parte da gestão doméstica (cf. 1 Tm 5:14). No entanto, de acordo com as conjecturas culturais, o marido ainda tinha supervisão.

Além disso, mordomos poderiam ser contratados para atuar como gerentes de grandes residências. (Curiosamente, em Tito 1: 7, o supervisor da igreja é descrito como sendo o mordomo de Deus). Por outro lado, as pequenas residências (ou seja, famílias pequenas) não precisavam necessariamente de alguém dentro de casa para agir como patrono ou administrador.

Superintendentes como gerentes

Em 1 Timóteo 3:2-7, há uma lista de qualificações morais para o superintendente da igreja (episkopos), também conhecido como supervisor ou bispo. Estas qualificações não se referem ou se aplicam a homens ou mulheres de maneira geral. A qualificação em 1 Timóteo 3:4a, que literalmente diz: “Que governe bem a [sua] própria casa” (cf. 1 Tm 3:5), assume uma grande residência e não uma família pequena.[2] (Observe que não há pronomes pessoais masculinos no grego de 1 Tm 3: 1-7; não há “dele” no grego).

Não se trata de domínio ou poder em 1 Timóteo 3:4-5.[3] O que os versículos 4-5 afirmam é que os superintendentes da igreja devem administrar bem (kalōs) seus lares.

Uma razão para todas as qualificações em 1 Timóteo 3:1-7, incluindo a qualificação de administrar bem, era garantir que o superintendente fosse uma pessoa socialmente respeitável e que não desse má reputação à igreja (cf. 1 Tm 3:7). Um lar mal administrado traria desonra para o chefe de família e desonra para a igreja, especialmente se a igreja se reunisse regularmente naquela casa.

Superintendentes como patronos

No primeiro século, igrejas (ou seja, comunidades cristãs) se reuniam em lares e funcionavam como famílias. E cuidar de uma igreja era como cuidar de uma família. (Homens e mulheres cristãos eram irmãos e irmãs, e frequentemente muito unidos). Se uma pessoa era incapaz de cuidar bem de sua própria casa, não seria capaz de cuidar bem de uma igreja. Essa era a principal razão pela qual um superintendente deveria ser capaz de administrar bem sua própria casa. Mas o que “administrar” implica?

O particípio grego proistamenon no versículo 4 e o infinitivo prostēnai no verso 5 (ambos do verbo proistēmi) são traduzidos como “governar” na maioria das versões. Este verbo grego pode ter o sentido de cuidar e prover. Proistēmi ocorre em Tito 3:8 e 14 no contexto de boas obras. Pode ser que em todas as oito ocorrências de proistēmi no Novo Testamento—em Romanos 12: 8; 1 Tessalonicenses 5:12; 1 Timóteo 3:4, 5, 12; 5:17; e Tito 3: 8,14—exista um senso de “cuidado” combinado com um senso de “liderar” ou “governar”.[4]

Além disso, todas as qualificações em 1 Timóteo 3 são prefaciadas pela declaração: “… se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função” (1 Tm 3:1b NVI). As palavras gregas traduzidas como “nobre função” na NVI significam literalmente “ocupação virtuosa” (kalos ergon) e referem-se a atos de caridade e benefícios. “Aspirar, então, ao ofício de bispo [ou superintendente] é estar desejoso de agir benevolentemente pelo bem-estar dos outros.” [5]

Mulheres como patronas e gerentes

Curiosamente, um substantivo relacionado do verbo proistēmi é usado em Romanos 16:2 para descrever o ministério de Febe. Febe pode muito bem ter sido a chefe de família da casa onde a igreja em Cencréia se reunia. O que é certo é que ela cuidou de muitas pessoas, incluindo o apóstolo Paulo. Paulo disse a respeito de Febe: “… tem sido de grande auxílio para muita gente, inclusive para mim.” (Rm 16:2 NVI).

Homens e mulheres cristãos com alguma riqueza cuidaram de igrejas no primeiro século, atuando como patronos e gerentes.[6] Além disso, essas pessoas geralmente eram os anfitriões das igrejas que se reuniam em suas casas relativamente espaçosas. Esses homens e mulheres foram provavelmente os primeiros superintendentes da igreja.[7]

Conclusão

A qualificação em 1 Timóteo 3:4a reflete a cultura da época e reflete a maneira de como a igreja funcionou no primeiro século. Mas hoje, tanto a cultura quanto a vida da igreja são muito diferentes. Hoje, as famílias (com pai e mãe) geralmente não são administradas por apenas uma pessoa. E a maioria das congregações não são igrejas pequenas que funcionam como famílias. Além disso, as igrejas modernas muitas vezes pagam seus líderes, mas no primeiro século, os líderes mais ricos apoiaram financeiramente a igreja organizando reuniões e ajudando os membros mais pobres. E 1 Timóteo 3:4 nunca ordenou que os lares precisassem ser conduzidas ou governadas por um homem.

Mais sobre as qualificações para superintendentes em 1 Timóteo 3:1-7 aqui. [8]


Notas Finais

[1] Afirma-se frequentemente que no mundo antigo a esfera masculina era pública e a esfera feminina era doméstica. Mas, na realidade, as duas esferas se sobrepuseram no mundo romano. Os homens podiam realizar negócios e receber clientes em casa; as mulheres podiam trabalhar, ou se envolver em negócios ou em obras públicas, fora de casa.

[2] Kevin Giles observa: “As qualificações exigidas de um bispo [ou superintendente] são aquelas que descrevem um respeitado chefe de família.” Traduzido de Patterns of Ministry among the First Christians (Eugene OR: Cascade Books, 2017), 62. (Fonte online)

[3] Na sociedade do mundo antigo, com inúmeras camadas sociais, a liderança era hierárquica e freqüentemente patriarcal, e os costumes do patrocínio davam ao patrono tanto proeminência quanto poder. Mas essas dinâmicas sociais não têm lugar na igreja. Ter poder sobre ou decisão sobre um outro irmão ou irmã adulto e capaz é um comportamento inaceitável para um cristão. Isso vai contra o que Jesus ensinou.

[4] Proistēmi no Novo Testamento “parece ter o sentido de (a. ‘liderar’), mas o contexto mostra em cada caso que também é preciso levar em conta o sentido de (b. ‘cuidar’). Isso é explicado pelo fato de que o cuidado era uma obrigação dos principais membros da Igreja embrionária.” Traduzido de: Bo Reike, “Proistēmi ”, Theological Dictionary of the New Testament (TDNT), Vol. 6, ed. Gerhard Friedrich, transl. and ed. Geoffrey Bromiley (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1968), 701-703, 701.

[5] Traduzido de: Giles, Patterns of Ministry, 62.
O dinheiro pode ter sido um dos principais recursos do ministério dos primeiros superintendentes da igreja. No contexto das associações greco-romanas, o supervisor (episkopos) era o diretor financeiro. Veja James Tunstead Burtchaell, From Synagogue to Church: Public Services and Offices in the Earliest Christian Communities (Cambridge: Cambridge University Press, 1992), 99. (Fonte online)

[6] 1 Timóteo 3 não declara explicitamente o que os superintendentes fariam, ou deviam fazer, na igreja de Éfeso. Raymond Brown observa que “nenhum papel cultual ou litúrgico é atribuído aos presbíteros-bispos [anciãos e superintendentes] nas Pastorais” Traduzido de: “Episkopê and Episkopos: the New Testament Evidence”, Theological Studies 41 (1980), 322-338. (Fonte online) Além disso, não há evidências no Novo Testamento que vinculem superintendentes (episkopoi) ou presbíteros (presbuteroi) ao culto. Veja James Tunstead Burtchaell, From Synagogue to Church, 84f. (Fonte online).

[7] Lídia, Priscila, Febe, Ninfa (Colossenses 4:15), Áfia (Filemon 1:2), a senhora eleita (2 João 1:1) e possivelmente Cloe (1 Coríntios 1:11), podem muito bem ter sido as supervisoras e patronas das igrejas que se reuniam em suas casas.

[8] As qualificações dadas em 1 Timóteo 3:1-7 parecem assumir que o supervisor será um homem, mas não afirma, no texto grego, que um superintendente deve ser um homem.

Imagem: Fractio Panis um afresco do século III na capela grega na catacumba de Priscila, em Roma. Pensou-se que este afresco retratou uma Eucaristia, mas pode representar um banquete funerário.

© 23 de junho 2018, Margaret Mowczko
Traduzido por Orlando Paulo Correia Reimão

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